sexta-feira, 13 de março de 2009

Aceitar ou resignar-se

Aceitar será o mesmo que resignar-se?

Aceitar é uma tarefa difícil. É ardua, exige de nós o que não temos para dar. Pede-nos que vivamos com o que nos parece impossível, ou com a falta disso. Por isso, aceitar uma perda, um medo ou um desejo surge-nos no horizonte como um trabalho hercúleo que aparentemente nunca vamos superar. Muitas vezes, o que acontece é resignarmo-nos. O tempo passa, sucedem-se os dias, a rotina instala-se e habituamo-nos. Quase esquecemos, aprendemos a viver com o que temos, chegamos a acreditar que aceitámos. Depois, subitamente, uma palavra fora do lugar, um gesto com um alcance que não conseguimos ver, trazem de volta a mesma mágoa, o mesmo remorso, a mesma dor. Então, não foi aceitação. Foi resignação. Foi o falso aceitar com que convivemos para sobreviver, porque não sabemos fazê-lo de forma diferente. Aceitar é receber. Resignar é conformar. Quando algo de bom nos acontece, aceitamo-lo com agrado. Não nos resignamos, certo? A resignação é a madrasta má da aceitação, muitas vezes confundida com ela. É parte do seu caminho, mas não é o fim.

A este propósito, li este excerto da Margarida Rebelo Pinto, que não considerando uma autora de excelência, soube descrever muito bem o quão difícil é aceitar. Porque a aceitação também se aprende.

Às vezes é preciso aprender a perder, a ouvir e não responder, a falar sem nada dizer, a esconder o que mais queremos mostrar, dar sem receber, sem cobrar, sem reclamar. Às vezes, é preciso partir antes do tempo, dizer aquilo que mais se teme dizer, arrumar a casa e a cabeça, limpar a alma. Às vezes, mais vale desistir do que insistir, esquecer do que querer. No ar ficará para sempre a dúvida se fizemos bem, mas pelo menos temos a paz de ter feito aquilo que devia ser feito, somos outra vez donos da nossa vida. Às vezes, é preciso abrir a janela e jogar tudo borda fora, queimar cartas e fotografias, esquecer a voz e o cheiro, as mãos e a cor da pele, apagar a memória sem medo de a perder para sempre, esquecer tudo, cada momento, cada minuto, cada passo e cada palavra, cada promessa e cada desilusão, atirar com tudo para dentro de uma gaveta e deitar fora a chave. Porque quem parte é quem sabe para onde vai, quem escolhe o seu caminho, mesmo que não haja caminho, porque o caminho se faz a andar. O sol, o vento, o céu e o cheiro do mar são os nossos guias, a única companhia, a certeza que fizemos bem e que não podia ser de outra maneira. Quem fica, fica a ver, a pensar, a meditar, a lembrar. Até se conformar e um dia então, esquecer.

Às vezes, acrescento eu, é preciso aceitar que o caminho é outro e não aquele que gostaríamos.

Excerto roubado ao sempre simpático PrimaNocte.

4 comentários:

Miss Glitering disse...

Tudo tão certo... que dói. Dói mesmo.

Um beijinho *

Peruca de Tule disse...

:S

L I N D O.

(escrito de lágrima no canto do canto do olho... Infelizmente...)

BeiJaçOoOoOO

Peruca de Tule disse...

:)

L I N D O.

"Até se conformar e um dia então, esquecer."

E será q s esquece mesmo? Esse "se conformar" não será uma outra aceitação ou resignação?!... E voltamos ao início: "Aceitar será o mesmo q resignar-se?"

Como diz o outro: deita pra fora. Deita pra fora!, pq quem fala, liberta e quem as ouve é q sofre...

BeiJaçOoOooOO

Eumesma disse...

Digam o que disserem dessa Sra adoro o que ela escreve, deixa-me sempre a pensar...
Lembro-me de ter lido um livro dela (penso que foi o "Sei Lá") e andei a pensar naquilo tudo dias e dias, ás vezes até sonhava com o que tinha lido...
Quem se resigna aceita sem lutar, acomoda-se e isso não é bom, pura e simplesmente "deixa-se ficar" e isso é péssimo...

Dizes tudo aqui: "Aceitar é receber. Resignar é conformar". ;-)

Gostei mto deste post, deu que pensar...:-)